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Whatever Lola Wants

Tentando sobreviver à vida no geral, e à humanidade em particular.

Whatever Lola Wants

Tentando sobreviver à vida no geral, e à humanidade em particular.

"Não" é "não", não é "talvez" nem muito menos "sim"

Perdão pelo título à laia de Lili Caneças. Mas há coisas que infelizmente ainda precisam de ser explicadas como se o fizessemos a uma criança de quatro anos. 

Começo por contar uma história: há coisa de 4 anos, fiz uma roadtrip com os meus pais - sim, com os meus pais, não com um namorado nem com um grupo de amigos, e estou pouco importada para os julgamentos sociais das pessoas que não conheço. Começamos essas férias em Viana do Castelo, uma cidade linda de morrer e, como é lógico, subimos até Santa Luzia. Lá estava um senhor a fazer pela vida, tentando vender porta-chaves aos turistas e, quando abordou a minhã mãe, ela respondeu "não, obrigada". A isto o senhor retorquiu "não? é logo assim?".

pausa para respirar fundo 

NÃO É NÃO, E PONTO FINAL.

Isto já transcende o conceito de consentimento na relação sexual, que é um tema que está muito na moda, e ainda bem. Isto já tem a ver com o facto de não ser socialmente aceitável dizer que não, porque isso vai transtornar os outros. 

Venho escrever isto, porque a semana passada tive uma espécie de encontro desastroso, com um tipo que trabalha no mesmo centro comercial que eu, e que me convidou para beber um café, depois de deixar bem claro que me achava uma pessoa interessante. O interesse da minha parte, infelizmente, não foi recíproco, mas decidi ir beber café com ele na mesma, para tentar provar a mim mesma que não sou uma snob antissocial que só sai com tipos altos, espadaúdos e com uma bagagem cultural riquíssima. 

É claro que, meia hora depois de me ter sentado na esplanada com a criatura, concluí que sou, na verdade, uma snob antissocial que só sai com tipos altos, espadaúdos e com uma bagagem cultural riquíssima. Tudo bem, já tive encontros do género, mas quando manifestei o meu desinteresse e disse "não", fui respeitada e continuei a dar-me bem com as pessoas em causa.

Ora, qual o meu espanto, quando isto não aconteceu da minha vez: sei que sou uma pessoa muito seletiva nas pessoas com quem decido manter conversa, e há alturas em que não converso de todo, com absolutamente ninguém, porque só quero estar no meu canto. Caramba, cheguei a esconder-me de pessoas no corredor dos congelados no Continente, só para não fazer o sacrifício de forçar uma conversa de ocasião. 

Sucede que este ser humano não compreendeu isso, e depois de muito dizer "não", "não quero" e "não estou interessada em conversar contigo" (note-se que estamos a falar em algo tão simples como uma conversa do dia-a-dia), acabei por o bloquear nas redes sociais pois, como vocês sabem bem, eu vivo sem paciência. 

O que mais me incomoda neste tipo de situações, e depois ter de responder aos "porquês?". Por que é que não falas, por que é que não dizes nada, por que é que és assim, por que... merda. A sério. Justificações devo-as à minha mãe e à minha patroa, porque cada uma à sua maneira me pagam as contas. Até porque as pessoas não querem realmente saber o porquê de dizermos "não", querem uma oportunidade para argumentar e convencer a pessoa a dizer, pelo menos, "talvez".

... e depois há aquelas pessoas que realmente gostam de nós e que, quando nos veem atrapalhadas nos relacionamentos ou no trabalho nos dizem, e bem "tens de aprender a dizer que não". Caramba, nós dizemos que não, as pessoas é que não o aceitam e nos manipulam. Assim como nós manipulamos as outras pessoas, é algo que todos fazemos, mas que só sentimos na pele quando é direcionado a nós e andamos enervados e infelizes por causa disso.

Por isso fica aqui a minha sugestão, para as exatamente 5 pessoas que vão ler isto: vamos ampliar o estudo e a promoção do consentimento para lá do assédio sexual, e trabalhar a arte de deixar em paz quem quer ser deixado em paz, e que diz claramente que quer ser deixado em paz. Não temos de ser todos amigos e ir todos para os copos, podemos simplesmente ter uma mão cheia de pessoas de quem gostamos mesmo, e dizer bom dia ao resto do mundo de forma cordial e educada, sem ficar a dever explicações se um dia não o fizermos.

Um kiss e um cheese.

ps: para os imbecis que ficaram a pensar "a culpa é tua por teres aceite o café, agora desenrasca-te", shame on you.

ps2: Para quem não sabe o que é um "não", fica aqui um link, para futuro esclarecimento: https://dicionario.priberam.org/n%C3%A3o

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