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Whatever Lola Wants

Tentando sobreviver à vida no geral, e à humanidade em particular.

Whatever Lola Wants

Tentando sobreviver à vida no geral, e à humanidade em particular.

Ao desconcerto do mundo

Há um soneto de Camões com o título deste post, e muito me tem dado que pensar. Mal o nosso Luizinho sabia que, cinco séculos volvidos, continuaria a fazer sentido o que ele escreveu.

Isto vem a propósito de várias situações do dia-a-dia, com de resto já vão estando habituados, - aliás, nesta altura do campeonato mais valia mudar o título do blog para "O que é que se passa com as pessoas?" - mas sobretudo porque comecei a ver uma série (que já todos tinham visto, menos eu) chamada "The Handmaid's Tale". 

Para quem não conhece, a história desenvolve-se num futuro distópico bastante próximo, onde a estrutura do governo americano mudou completamente e passou a ser comandado por fundamentalistas religiosos judaico-cristãos (que são tão maus ou piores ainda que os fundamentalistas religiosos islamicos). Neste futuro próximo, a poluição e as aletrações climáticas tornaram a grande maioria das mulheres estéreis, e as poucas mulheres férteis que existem são reunidas, é-lhes feita uma lavagem ao cérebro, e tornam-se uma espécie de úteros andantes, entregues nas casas dos senhores-fulanos-tais bem-casados para que eles as violem de uma forma cerimonial com a mulher a assistir, de forma a garantir a sobrevivência da espécie.

Bem...

Se não tivermos cuidado, lá vamos parar.

"Ai, que exagerada que tu és, Lola!" Não, não sou, amigos. Em 2019 o mundo divide-se em vários grupos de pessoas:

- Aqueles que, por diversos interesses, não querem saber de quem morre ou de quem vive nos anos seguintes, pois o que importa é que a nossa empresa esteja a funcionar porque:

a) dinheiro para uma reforma nas Canárias;

b) o ser humano é a coisa mais extraordinária do universo e é-lhe inata a necessidade de constante evolução, à custa do local onde vivemos;

(a alínea b) é muitas vezes usada como desculpa para a alínea a), contudo eu gosto de acreditar que há quem realmente tenha este pensamento) 

- Aqueles que lutam contra isto à bruta, a atirar pedras e caixotes do lixo às montras das lojas de quem vai ter um imenso prejuízo sem ter nada a ver com a manifestação & aqueles que lutam pacificamente, tentando igualar direitos entre todos os seres humanos e chamar a atenção para os problemas que vão surgindo.

(os primeiros são imbecis, os segundos super-heróis)

- Aqueles que têm um bom pensamento crítico mas o desperdiçam em redes sociais e blogs (estamos juntos, malta!)

- Os que não fazem nada. É que escrever coisas em redes sociais e blogs, ainda implica partir do princípio que alguém nos vai ler e concordar ou discordar de nós. O mais preocupante são as pessoas que adormecem enquanto são eleitos ditadores, e enquanto a democracia morre às mãos do dinheiro e do medo. Estas pessoas não votam, porque estão à espera que surja alguém que prometa protegê-las das desgraças e da corrupção. - este é o argumento de Trumps e Bolsonaros, e extremas direitas que voltam a nascer na Europa. São também os argumentos do regime de The Handmaid's Tale - a promessa de que tudo vai ficar bem se confiarem cegamente neles, mesmo que isso implique castigos como cortar membros ou arrancar olhos.

Há aquele cliché de que a ciência se opõe às emoções e à empatia e eu, muito a custo, vergo-me a esse cliché: nunca o ser humano foi tão evolído a nível científico e de armamento, nunca foi tão primata no que diz respeito à empatia. Por isso é que estamos tão próximos de arranjar curas para o cancro, para a sida e para outros flagelos médicos, e não conseguimos ainda lidar com quem tem depressão.

"Isso não é bem uma doença", É SIM, PORRA, e é uma doença que só existe porque o ser humano não se sabe colocar no lugar do outro. Os medicamentos são fabulosos e de suprema necessidade, sim, mas enquanto não nos aprendermos a questionar "se fosse eu no lugar dele, naquela situação e naquelas circunstâncias, o que é que eu faria?". Não é muito difícil, a sério. Logo vamos começar a substituir o "epá, anima-te!" pelo "eu compreendo-te, mas prometo que vai ficar tudo bem se vires as coisas nesta outra prespetiva". 

Falta amar. E não estou a falar no tinder nem nos engates de bar, nem em nada romântico sequer. Falta gostar de se ser um humano, de se admitir que todos temos emoções válidas, e a aceitarmo-nos todos como diferentes e válidos no mundo, porque se nascemos é porque temos um lugar a reclamar. Falta sair mais dos laboratórios para ver o pôr-do-sol. Falta comprar um bolo àquele mendigo. Falta olhar à volta e ver que o planeta em que vivemos merece ser estimado.

Diria ainda que falta poesia, mas que dos deuses nos livrem de me transformar numa influencer pseudo-literária da internet.

Um kiss e um cheese. 

"Não" é "não", não é "talvez" nem muito menos "sim"

Perdão pelo título à laia de Lili Caneças. Mas há coisas que infelizmente ainda precisam de ser explicadas como se o fizessemos a uma criança de quatro anos. 

Começo por contar uma história: há coisa de 4 anos, fiz uma roadtrip com os meus pais - sim, com os meus pais, não com um namorado nem com um grupo de amigos, e estou pouco importada para os julgamentos sociais das pessoas que não conheço. Começamos essas férias em Viana do Castelo, uma cidade linda de morrer e, como é lógico, subimos até Santa Luzia. Lá estava um senhor a fazer pela vida, tentando vender porta-chaves aos turistas e, quando abordou a minhã mãe, ela respondeu "não, obrigada". A isto o senhor retorquiu "não? é logo assim?".

pausa para respirar fundo 

NÃO É NÃO, E PONTO FINAL.

Isto já transcende o conceito de consentimento na relação sexual, que é um tema que está muito na moda, e ainda bem. Isto já tem a ver com o facto de não ser socialmente aceitável dizer que não, porque isso vai transtornar os outros. 

Venho escrever isto, porque a semana passada tive uma espécie de encontro desastroso, com um tipo que trabalha no mesmo centro comercial que eu, e que me convidou para beber um café, depois de deixar bem claro que me achava uma pessoa interessante. O interesse da minha parte, infelizmente, não foi recíproco, mas decidi ir beber café com ele na mesma, para tentar provar a mim mesma que não sou uma snob antissocial que só sai com tipos altos, espadaúdos e com uma bagagem cultural riquíssima. 

É claro que, meia hora depois de me ter sentado na esplanada com a criatura, concluí que sou, na verdade, uma snob antissocial que só sai com tipos altos, espadaúdos e com uma bagagem cultural riquíssima. Tudo bem, já tive encontros do género, mas quando manifestei o meu desinteresse e disse "não", fui respeitada e continuei a dar-me bem com as pessoas em causa.

Ora, qual o meu espanto, quando isto não aconteceu da minha vez: sei que sou uma pessoa muito seletiva nas pessoas com quem decido manter conversa, e há alturas em que não converso de todo, com absolutamente ninguém, porque só quero estar no meu canto. Caramba, cheguei a esconder-me de pessoas no corredor dos congelados no Continente, só para não fazer o sacrifício de forçar uma conversa de ocasião. 

Sucede que este ser humano não compreendeu isso, e depois de muito dizer "não", "não quero" e "não estou interessada em conversar contigo" (note-se que estamos a falar em algo tão simples como uma conversa do dia-a-dia), acabei por o bloquear nas redes sociais pois, como vocês sabem bem, eu vivo sem paciência. 

O que mais me incomoda neste tipo de situações, e depois ter de responder aos "porquês?". Por que é que não falas, por que é que não dizes nada, por que é que és assim, por que... merda. A sério. Justificações devo-as à minha mãe e à minha patroa, porque cada uma à sua maneira me pagam as contas. Até porque as pessoas não querem realmente saber o porquê de dizermos "não", querem uma oportunidade para argumentar e convencer a pessoa a dizer, pelo menos, "talvez".

... e depois há aquelas pessoas que realmente gostam de nós e que, quando nos veem atrapalhadas nos relacionamentos ou no trabalho nos dizem, e bem "tens de aprender a dizer que não". Caramba, nós dizemos que não, as pessoas é que não o aceitam e nos manipulam. Assim como nós manipulamos as outras pessoas, é algo que todos fazemos, mas que só sentimos na pele quando é direcionado a nós e andamos enervados e infelizes por causa disso.

Por isso fica aqui a minha sugestão, para as exatamente 5 pessoas que vão ler isto: vamos ampliar o estudo e a promoção do consentimento para lá do assédio sexual, e trabalhar a arte de deixar em paz quem quer ser deixado em paz, e que diz claramente que quer ser deixado em paz. Não temos de ser todos amigos e ir todos para os copos, podemos simplesmente ter uma mão cheia de pessoas de quem gostamos mesmo, e dizer bom dia ao resto do mundo de forma cordial e educada, sem ficar a dever explicações se um dia não o fizermos.

Um kiss e um cheese.

ps: para os imbecis que ficaram a pensar "a culpa é tua por teres aceite o café, agora desenrasca-te", shame on you.

ps2: Para quem não sabe o que é um "não", fica aqui um link, para futuro esclarecimento: https://dicionario.priberam.org/n%C3%A3o

Para cada situação do dia-a-dia, há uma música do Conan Osíris

...por isso é que ele é bom. Tem uma antena bem sintonizada no nosso século XXI, e não no séc XIX, como a maioria dos tugas. Mas deixemos isso para o post que eu vou fazer quando ele ganhar a Eurovisão e passar de besta a bestial. Love Conan, ainda assim.

O que me traz aqui hoje é um desabafo inspirado por uma música dele, que é um estado de espírito constante:

O mundo tem as prioridades trocadas, e eu francamente não tenho paciência. Nos últimos tempos tenho andado um bocadinho afastada do mundo e da net, em parte por causa do trabalho, em parte por causa da vida, em parte por causa dos spoilers de Game of Thrones, porque já não há respeito por quem não consegue ficar acordado até às 2h da manhã.

Com isto, tenho alguns comentários em atraso para fazer:

1) Notre Dame ardeu, e as grandes marcas doaram quantias exorbitantes para recuperar a igreja. Claro que as quatidades foram obscenas, escandalosas e que há muita gente a passar fome no mundo. Mais uma vez, o velho continente passou por fútil por se dedicar mais a um monumento do que a causas humanitárias, e montes de pessoas vieram mostrar o seu desagrado em público. Vamos cá ver uma coisa: primeiro, as pessoas fazem com o dinheiro delas aquilo que querem, e se calhar o que as marcas deram àquela igreja equivale àquilo que muitas pessoas dão de esmola para acender uma velinha em Fátima. A diferença é que uma pessoa que dá, sei lá, 1€ por uma vela em Fátima tem no máximo quatro dígitos na conta bancária, enquanto quem dá um milhão têm vários dígitos em várias contas no Mónaco, Suíça e Ilhas Caimão.

"Ah, e tal, fome em África...." - Ah, e tal, vejo muita gente a reclamar dos estilistas, e ninguém a reclamar do Vaticano. Se calhar deviam começar por aí.

2) Alcoholocausto. Aqui a minha reação foi qualquer coisa de giro. Uma amiga mandou-me o link da notícia que dava conta que um dos carros da Queima das Fitas de Coimbra iria ter este belo nome que destaquei a negrito, e eu pensei "cambada de imbecis. Mas pronto, deve ser uma engenharia, são um bocado bárbaros, se fosse um carro de História era pior"

E NÃO É QUE É MESMO DE HISTÓRIA?

Shame on you, colegas da FLUC. Como eu disse, se fosse outro curso qualquer, não me chocaria. Mas os historiadores têm a obrigação ética de nos alertar sobre o passado no presente, para que não se cometam os mesmos erros no futuro. É a mesma coisa que um carro de medicina se chamar "alcooncológico" - não fica bem. Numa época mais pacífica, onde a democracia florescesse no mundo, até podiam argumentar que é humor e que o humor é, ou deve ser, amoral. Mas num tempo em que vimos renarcer a extrema-direita no mundo e onde Bolsonaros e Trumps são eleitos, tenham paciência. Sobretudo vocês! Se não podemos confiar em quem estuda História para evitar que o passado de repita, confiamos em quem?

3) O tuguismo geral do dia-a-dia: que é como quem diz, o tuga a ser tuga, egoísta, umbiguista, comodista. Isto manifestou-se sobretudo quando veio à baila aquela petição para os shoppings fecharem ao domingo, e li logo dois comentários que se destacaram. O primeiro dizia - "Mas os serviços de saúde funcionam ao domingo", o que significa, das duas uma: ou esta pessoa trabalha nos serviços de saúde ao domingo e quer que o resto do mundo trabalhe também para não se sentir desgraçada sozinha, ou está a comparar a urgência de engessar uma perna com a urgência de comprar um par de sapatos. De qualquer das formas, é um imbecil

O segundo comentário dizia algo "não se admite, uma pessoa quer passear com a família!" Ora, meus amigos: não gostam de fadinho e músicas que falem de saudade, mar e caravelas? Vão dar uma voltinha à marginal na Figueira da Foz. Façam um pic-nic no parque e vão andar no Basófias. Vejam um filme em casa. Já sei, assim mesmo na loucura: CONVIVAM UNS COM OS OUTROS E SEJAM UMA FAMÍLIA, em vez de se irem enfiar num espaço fechado, barulhento e com luzes artificiais a gastar o dinheiro que não têm para comprar coisas para os vossos filhos não sentirem tanto o vazio emocional que nasce por vocês serem umas bestas consumistas.

Acho que resumi bem o meu estado de espírito. Não há paxorra para a humanidade estes dias.

Um kiss e um cheese.

A imbecilidade generalizada de quem entra em pânico

Quem levante a mão e atire a primeira pedra quem, nestes últimos dias, não se viu no meio de trânsito inexplicável junto a uma bomba de gasolina, porque estavam cinquenta pais e mães de familia a atestar a(s) sua(s) viatura(s), antes que o apocalipse se tornasse uma realidade do nosso tempo.

Mas isto tem uma explicação: onde é que o tuga gosta de estar? No meio da confusão, para depois poder juntar-se com outros tugas, uns dias depois, num café, com um metro de finos, a dizer "eu estive lá! eu vi, com estas duas retinas que a terra há-de comer, se não morrer queimado!".

Há ainda uma outra explicação que é, ela também, outra caraterística muito vincada do tuga: o tuga é um gajo prevenido. O tuga ouve no noticiário que há uma leve hipótese de os combustíveis acabarem no espaço de uma semana e pouco. Então, arregaça as mangas e pega num carro, a mulher pega no outro, o filho de três anos pega no triciclo,  juntam três bidons, cinco garrafões, dez garrafas de 1,5l e enfia-se na bomba mais próxima até arranjar combustível para cinco viagens Lisboa-Paris de autocarro, e tudo porque é um gajo prevenido.

Não.

Este gajo é um palerma.

Não sejam como ele.

Se calhar, se não houvesse tanto umbiguismo e pânico bárbaro, isto até dava para todos. Se calhar, se estas pessoas pusessem 20€ de combustível em cada viatura e poupassem aquele tipo de viagens de "vou de carro, que não me apetece ir a pé buscar meia dúzia de papos secos à padaria que fica a 10min a pé de casa", eram mais saudáveis, mais civilizadas, e o mundo era um lugar melhor.

E falando em pão: o pânico nas bombas de gasolina está muito trendy nestes dias, mas alguém já pensou que, ao drenar as últimas gotas de combustível para os seus carros pessoais, há carrinhas e camiões de entregas que vão em breve encostar e deixar de fazer entregas de bens alimentares e medicamentos? 

É que, realmente, o que interessa é ir de férias para a terrinha na Páscoa, mesmo que não haja o que comer, ou que dê o badagaio à tia Zulmira porque estavam esgotados os comprimidos para a diabetes. 

Com esta me vou.

Um kiss e um cheese.

Pessoas que queimam livros

Aquilo que tenho a dizer vem no seguimento de algumas notícias que, nos últimos dias e últimas semanas têm vindo importadas do século XIX.

Há alguns dias li que padres na Polónia queimaram publicamente livros do Harry Potter porque eram um incentivo à prática de magia negra. Hoje li que numa escola em Barcelona retiraram uma série de livros infantis e contos de fadas do catálogo de uma escola porque eram "tóxicos" para as crianças. 

Não sei quanto a vós, mas a mim apetece-me gritar. O que se está a passar com o cérebro do  ser humano? Será que se está a tornar intolerante às metáforas, na porporção em que o resto do corpo se torna intolerante ao glúten e à lactose? 

"Ai, c'horror! Uma história onde uma menina vai pela floresta levar bolinhos à avó e um lobo falante a aborda! Não posso mostrar isto ao meu filho, vamos que ele faz o mesmo! Tenho de o proteger!"

Mas, ao mesmo tempo, cria-se no mundo uma estirpe de agentes paternantes que decidem não vacinar as crianças. Tudo bem.

Alguém que avise estas criaturas que, ao mesmo tempo que podem, e devem, ler estas coisas às crianças, devem também explicar que existe uma moral nesta história: que não devem andar sozinhos em lugares escondidos e muito menos falar com os estranhos que lá encontrem.

Estas histórias são a base da educação das crianças há uma série de gerações, e não somos todos psicopatas, ok? Vamos lá abrandar e dar algum crédito aos irmãos Grimm.

Também não há muito tempo no nosso país houve uma polémica semelhante, mas com uns versos de Álvaro de Campos que uma editora decidiu censurar, porque referia meninas a masturbar homens de aspeto decente em vãos de escadas. Censura moderna ultra-moralista e muito interessante, a meu ver, num país onde o herói nacional é um jogador da bola que se viu envolvido num escândalo sexual do qual nunca mais se ouviu falar, e onde a alegada vítima foi, logo à partida, descredibilizada. O que me leva a levantar uma questão: quando censuramos, em Portugal, estes versos, queremos proteger as meninas, ou os homens de aspeto decente?

Resumindo e baralhando: não faz sentido falarmos de censura nos livros no tempo em que vivemos. Está certo que a memória coletiva é curta, mas é assim que se abrem as portas a governos totalitários e com ditadores à cabeça. Como é que os evitamos? Lendo. Lendo livros de todos os tipos. Leiam a "Lolita", que tem pedofilia, mas ensinem as pessoas que isso é mau. Leiam Camões, mas ensinem as pessoas que, por muito bom que seja, já ninguém precisa de escrever em versos decassilábicos para ser considerado talentoso. Leiam Margarida Rebelo Pinto, mas ensinem às pessoas que há melhor. Mas leiam.

Quem acha muito bem que esta censura seja feita, pode começar pelos manuais de História do 3º ciclo. 

Um kiss e um cheese.

Os portugueses e a meteorologia

O que se segue vem na sequência do post anterior, onde se culpa a deusa Deméter, e não a humanidade, pelas alterações climáticas. É um bocadinho pagão, podem saltá-lo.

A reflexão que se segue, verão, é muito mais mundana, e começa com uma simples pergunta:

Qual é a cena entre os portugueses e a meteorologia? 

Vamos por partes: como é que um português quebra o gelo com um desconhecido? Fala do tempo. Como é que um português muda de tópico numa conversa? Fala do tempo. Doem as cruzes? É mudança de tempo. Tem o pingo ao nariz? Ai, este tempo...

O clima há-de as pagar sempre.

Não sei se é por haver ainda uma influência muito grande da agricultura no nosso país. Falo por mim, que cresci numa aldeia, onde o meu avô devorava o Borda d'Água para saber as previsões de chuvas e ventos por causa das sementeiras. Já para não falar de ver as notícias das 20h religiosamente, até passarem as previsões metereológicas para o dia seguinte e, na noite de passagem de ano ver para que lado soprava o vento porque, ao que parece, dependendo da direção em que sopre pode indicar se vai ser um ano seco, ventoso ou chuvoso. Porque, na altura, a chuva era realmente muito importante.

Depois, há aquela previsão sempre certeira, que é a da avó: "doem-me muito os joanetes, deve vir suão". "Dói-me muito o pé que parti, vem lá chuva" - e não é que vem mesmo?  

Hoje estamos mais evoluídos, e basicamente consumimos as aplicações do tempo para anteciparmos o que vestir e onde ir tirar fotos para publicar no Instagram. Já não se coloca a questão do fazer chuva ou sol ser benéfico ou não para as batatas: queremos é bastante sol e calor para vestirmos o biquini e ir para a praia. Vêm dois dias de calor, mesmo que seja um calor diabólico e contranatura num mês em que não seria suposto, e já estamos no verão, compramos calções de praia, andamos de chinelos de enfiar o dedo e t-shirt na rua, vamos buscar os primos de França ao aeroporto. Claro que, depois deste pequeno doce, queremos mais, e quando o clima regulariza e temos chuva em Abril - imagine-se que o "Abril, águas mil" afinal é um mês naturalmente chuvoso, que coisa absurda! - há uma pequena revolta social, porque afinal temos de ir bucar o casaco que já tínhamos embrulhado num baú com naftalina. 

CONTUDO, quando a temperatura sobe aos 40ºC, aqui d'el rey, que eu sou uma pequena flor delicada que não tolera este calor insuportável. 

Nunca estamos bem, pois não? 

Será que reclamamos do tempo, porque o tempo não reclama connosco de volta, e está na nossa natureza, pura e simplesmente, encanzinar com alguma coisa?

Com esta me vou.

Um kiss e um cheese.

Post com informação mitológica e irrelevante

Razão para estar a cair granizo esta semana, sendo que na semana passada estiveram, em média, 25ºC:

Deméter: Filha, já chegaste! Como está o marido? (o Sol começa a abrir, os passarinhos cantam, as flores desabrocham)

Perséfone: Oh, tudo na mesma. A guardar as almas dos defuntos, e assim. 

Deméter: Bem, este ano vieste um bocadinho mais cedo. Não te esqueceste de nada?

Perséfone: Acho que não...

Deméter: Pagaste ao Caronte?

Perséfone: Sim.

Deméter: Alimentaste a Empusa?

Perséfone: Sim!

Deméter: Trancaste a porta da frente?

Perséfone: ................dá-me dois mitutos.

Deméter: Não vás lá abaixo outra vez! (começa a chover torrencialmente.)

 

(ps: Para quem não sabe, o mito do rapto de Perséfone está ligado ao ciclo das estações do ano. Perséfone acaba por passar metade do ano longe da mãe no Hades, o que corresponde ao inverno e à pouca motivação que Deméter tem de fazer crescer as colheitas dos Homens, e a outra metade, então, passa-a com a mãe, que corresponde ao período mais fértil das terras e que começa com a primavera.)

OU ENTÃO....

está provavelmente relacionado de algum modo com o facto de nós andarmos a destruir o planeta. 

Não sei.

Um kiss e um cheese.

Na minha mesinha de cabeceira jaz um livro vermelho

...e de bolinha vermelha também.

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Quando decidi comprar este pequeno livro, confesso que já estava um bocado massacrada com 8h de trabalho em cima, só queria comprar chocolates e ir para casa, mas este menino estava em promoção. Achei que aprender insultos novos seria a cereja no topo do bolo, convencida de que iria aprender algum que pudesse usar no meu dia-a-dia sem que as pessoas soubessem que eu as estava a insultar. Oh, como eu me enganei: nada do que vem neste livrinho é subtil. Devorei-o nessa mesma noite, sentindo um rubor a crescer nas minhas faces a cada página que lia. Sim, porque eu na realidade sou uma pessoa muito cândida e inocente. Talvez seja até melhor baixar a luminosidade do vosso dispositivo, não vá o brilho da minha auréola cegar-vos por wi-fi.

É dividido em cinco capítulos, e a sua estrutura lembra uma espécie de enciclopédia. Só que uma enciclopédia que reúne em 143 páginas as expressões e impropérios mais javardos da língua portuguesa. E digo-vos uma coisa: a nossa língua - a língua de Camões; a língua que Vénus "com pouca corrupção crê que é latina"; a língua onde o Romantismo e a poesia assentam que nem uma luva - a nossa língua é capaz de fazer corar o Diabo

Na realidade, acho que isto é maravilhoso, que deve servir de inspiração a muitos, e de abre olhos a outros tantos. A língua portuguesa não se resume ao campo semântico de mar, saudade e tristeza. O popular nem sempre é castiço e fofinho. E só para vos provar isso mesmo, partilho aqui alguma sabedoria popular que aprendi ao ler este livro. 

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Agora pensem.

Um kiss e um cheese.

Cá estamos

Isto é um post de entrada de mais uma pedra na calçada interminável da blogosfera, o que significa que o mundo acabou de ganhar mais uma resmungona na internet: eu mesma. Isto porque, temos todos de concordar, o Facebook começa a ficar um bocado gasto, e isto dos blogs é um bocado como o padrão de leopardo - há anos em que é mais trendy do que noutros, mas a realidade é que nunca nos desassombra realmente.

Por isso, nada temam, os meus comentários cínicos, espirituosos e escritos no último rasgo de paciência do dia vão continuar. Se alguma das coisas que aqui escrever parecer demasiado palerma, culpem a meia dúzia de gatos pingados que algum dia me disseram "uau, tens bué razão e disseste isso com bué piada. Devias ter um blog."

Um kiss e um cheese.